Paraibano esquecido
Por que será que a Paraíba não festeja o gênio Cassiano, o músico que introduziu a soul-music no Brasil?
Seu nome é Genival Cassiano, e ele nasceu em Campina Grande, aqui na querida Paraíba velha de guerra. Para quem não sabe de quem se trata, ele é autor de pelo menos três clássicos da Música Popular Brasileira: Primavera (Vai Chuva), Coleção e A Lua e Eu. Mais que isso é um dos grandes cantores da música nacional que cruzou com as influências da soul-music e deu-nos mais um dos crossover maravilhoso. Logo cedo resolveu quibandar lá pelas plagas do Sul, e fez escola.
Cassiano deu aulas práticas de canto a Tim Maia e todos os que demais seguiram sua tendência musical. Em setembro ele completa 64 anos de idade e, depois de viver uma fase áurea, resolveu enclausurar-se tal qual fez o seu patrício Geraldo Vandré. Esses dois artistas são, para mim, os mais importantes de nossa música popular ainda vivos, mas, afastados da música por desilusão e carma. Ombreados a Sivuca e Jackson do Pandeiro, formaram o quarteto mágico de nossa canção popular, porém tanto Cassiano quanto Geraldo abdicaram da luz da fama para mergulhar em labirintos existenciais, uma espécie de exílio dentro da alma.
Da última vez que consegui contato com Cassiano (através de Tim Maia) ele demonstrou um fastio estranhamente sóbrio, mas não raro angustiado e amargo. Dizia-se aposentado da música pelo fato d'ela ter assumido uma face obscura do consumo "sem o menor trato artístico". Dediquei algumas páginas de meu livro MPB de A a Z (Ed. Idéia) a ele e, qual minha estranheza, pouca gente o conhecia e menos pessoas ainda sabiam que ele era paraibano.
Na verdade ele migrou cedo para o Rio de Janeiro e já no início da década de sessenta fundaria um dos núcleos musicais antológicos da MPB, o Bossa Trio, que mais tarde seria rebatizado de Os Diagonais. Aquela altura Cassiano confessa que ouvia freneticamente os discos de gravadoras como Stax e Motown, especializadas em Soul Music, e que nomes como do guitarrista-cantor Curtis Mayfield e do grupo Booker T & The MGs irradiavam idéias radicais sofisticadas de uma música que aos leigos, parecia simplória.
Com Os Diagonais ele lançaria seu primeiro disco, um long-play intitulado de Cada Um Na Sua, e mudaria a cabeça de muita gente, como admitiu Tim Maia em visita a João Pessoa pouco antes de se encantar e voar para cantar pros anjos. Aliás, o próprio Tim chegou a gravar discos tendo a banda (que incluía ainda Hyldon, outro outsider, autor de Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda) oblíqua liderada pelo arredio gênio paraibano.
Por que será que a Paraíba não alude a Cassiano quando reverencia, de forma interesseira, os seus vultos? Faço-me essa pergunta já vão anos, décadas, sei lá, mas nunca consigo me responder. Dolores, fiel companheira das minhas horas de inquietações, diz que "é porque ele não está na crista da onda". Crista? Onda? "Sim, esse Cassiano anda de crista caída", assevera.
Os argumentos da camarada não são de todo absurdos, porque na politiquice isso é algo estapafúrdio ao mesmo tempo corriqueiro. Mimos sobram para os que ajudam na propaganda, mimos faltam para os que não rendem estilhaços de luz. Cassiano é um daqueles artistas chamados de malditos na música brasileira, time que inclui ainda Jards Macalé, Itamar Assumpção e Sérgio Sampaio, os dois últimos já na companhia de Tim Maia no andar de cima, onde o obeso e genial cantor já atua como síndico.
A Paraíba (digo, seus políticos, é claro) é pródiga em se amoitar na réstia dos astros, para vampirizá-los e cooptar seus louros. Se Cassiano não grava mais e não está nem aí para os parâmetros globais de cultura, não interessa aos paraibanos. Essa triste constatação - pasmem - veio da luz estupefata de Dolores, sem a qual esta coluna já teria sido extirpada das entranhas desde jornal.
Devo cometer a heresia de dizer que Cassiano, o bom paraíba, é uma referência para cantores de várias gerações, e que o CD Cedo Ou Tarde (Sony) tem vozes como as de Marisa Monte, Djavan e Ed Motta entre outras celebridades, cantando com ele seus sucessos.
Digo heresia porque na cultura deste país os mitos são construídos em cima do alicerce de números, e não de méritos. Recomendo que os mais argutos procurem ouvir discos do cantor-compositor tais como Imagem & Som (original de 1971 e reeditado no formato de CD em 2001) e Cuban soul - 18 Kilates (que saiu como LP em 1976 e recebeu versão digital em 2002) para perceber a genialidade das harmonias de Genival Cassiano, sua voz fabulosa e suas composições de elegante swing.
Temo que a Paraíba venha afagar o arredio Cassiano quando ele morrer. Inquieta-me a idéia, mas é provável sua consolidação, recorrendo a observação da vesuviana Dolores de que os paraibanos hão de encenar mais um capítulo ranhoso de sua saga oportunista. Pelo que entendo, a nossa vocação é algo similar a das carpideiras.
Será que a Paraíba é uma carpideira de plantão à beira da cova de seus filhos?
Por: Ricardo Anísio - O Norte Online |