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Na Rua, na Chuva, na FINLÂNDIA

antonia
Em Helsinki, banda transforma composição de Hyldon em sucesso

Desde o último verão, Helsinki é uma cidade em que brasileiros podem sentir-se (mais) em casa. Não, não é o aquecimento global que anda provocando por lá um calor como o dos trópicos. É que os 500 mil habitantes andam, mais do que nunca, propensos a se soltar quase como se estivessem na Marquês de Sapucaí. Acontece toda vez que o rádio toca a esquisita, porém um tanto familiar, "Kadulla, sateessa tai landella": trata-se de uma versão para "Na rua, na chuva, na fazenda", interpretada por uma moça que canta em... finlandês! A velha balada soul de 1975, de

Hyldon, que estourou novamente no Brasil ao ser regravada pelo Kid Abelha em 1996, virou o grande hit da Finlândia. A voz é de Lissu Lehtimaja, que lidera a banda Maria Gasolina, duas das poucas palavras dessa história toda que não soam estranhas para nós.

- Maria Gasolina tem sido um nome ótimo! Todos os brasileiros que ouvem dão gargalhadas e, por nossa causa, muita gente aqui já sabe o significado do termo. Foi a música ’Carro velho’, da Banda Eva, que me inspirou. Eu, pessoalmente, adoro carros, mas só os velhos mesmo. Aqui, dirijo um Lada 1200 L, de 1979, verde claro. Chamo ele de Marciano - conta Lissu, de sua cidade.

Sob o nome de "Vanha auto", a música está, junto com o hit de

Hyldon, no repertório de shows da Maria Gasolina e também no disco "Se jokin" (algo como "Aquele algo"), que traz mais seis pérolas brasileiras: "Roosa" ("Rosa", da banda Olodum); "Tyttö tanssii" ("A menina dança", dos Novos Baianos); "Kunnon papupata" ("Feijoada completa", do Chico Buarque); e, de Caetano Veloso, "Baby", "Lisbela" e "Tietan valo" ("A luz de Tieta").

- Já tínhamos feito outros discos, mas esse é oficial, pegamos autorização para gravar cada música. Depois de pronto, levei o CD na Rádio Helsinki, que tem programas inteligentes e música alternativa. Quando saí de lá e entrei no meu carro para ir embora, a música já estava tocando. Ela figurou no Top 10 por três semanas - conta Lissu.

A (pré-)história da banda começa quando Lissu, aos 16 anos, desembarca em São José dos Campos (São Paulo) para um intercâmbio estudantil de um ano. De cara, a menina apaixonou-se por Marisa Monte, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Na volta para casa, com a mala cheia de discos, influenciou muitos amigos finlandeses. Lissu, hoje com 29 anos, lembra daquela época com muito carinho:

- Eu queria mostrar aos amigos o que tinha conhecido, mas eles não se emocionavam como eu porque não entendiam. Comecei a traduzir as músicas e contar para eles a história de cada uma. Um dia, na escola, a professora pediu para escrevermos poesias e eu perguntei se poderia traduzir letras brasileiras. Ela falou que eu teria que cantá-las e eu acabei montando uma banda.

Lissu passou de ano e acabou virando tradutora. O mergulho profissional no universo da música só aconteceu em 2001, quando decidiu ligar para Ilppo Lukkarinen, seu baixista no exercício escolar. O negócio deu certo. Ao lado de Timo Wright (guitarra), Mikko Neimo (bateria), Patrick Nwajei (percussão), Taneli Bruun e Essi Pelkonen (saxofones) e Sanni Verkasalo (flauta, vocais), Lissu vendeu mais de mil cópias do disco e popularizou de vez a nossa música na Finlândia. Mas, apesar de falar e traduzir nossa língua direitinho, a trompetista e cantora ainda encontra dificuldades:

- Em ’Luz de Tieta’, troquei ’carnaval’ e ’futebol’ por ’São João’ e ’Natal’, que são festas importantes para os finlandeses. Quando canto ’Alegria, alegria’, de Caetano, ’o sol de quase dezembro’ vira ’o sol do meio do verão’, porque aqui é inverno em dezembro. Tento sempre ser fiel ao texto original, porque quero que o ouvinte finlandês possa se identificar com o texto e se emocionar da mesma forma como o brasileiro o faz.

A banda da moça já conseguiu colher frutos na capital do país. Ficou com fama de animar os lugares em que se apresenta. Motivo de orgulho para Lissu:

- O povo finlandês é meio frio e tímido. Não é fácil animá-los e fazê-los dançar feito loucos. E a Maria Gasolina tem uma certa fama de conseguir animar todo mundo, fazendo todo mundo pular e suar como se estivesse no carnaval brasileiro.

 

Por Christina Fuscaldo - O Globo

 
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