Entrevista exclusiva: Hyldon - Soul Brasileiro
"Fala galera do Kid. Estou daqui sempre torcendo por vocês, senta o pau. Na dúvida, siga a intuição".
A frase do telegrama enviado por Hyldon e lido por uma feliz Paula Toller durante a gravação do Acústico MTV do Kid Abelha entrega o principal ingrediente da receita do artista: intuição parece ser a melhor explicação para tudo que aconteceu com esse personagem importantíssimo e singular da música brasileira.
Baiano papa-goiaba de musicalidade universal, Hyldon cada vez mais chama para si, espontaneamente, a atenção da mídia e das novas gerações de músicos. Daqui e de fora: Hyldon é sondado por um importante selo internacional.
Não é para qualquer um, realmente. Guitarrista, compositor, produtor e gente boa com trânsito livre e muito querido no meio, Hyldon me contou bastante sobre essa história bacana e importante, de um fenômeno intuitivo que fez acontecer sua música. Nas ruas, na vida, com talento. Sem precisar sequer de um pedacinho de jabaculê.
RÁDIO AGÊNCIA - Você começou a brincar com violão aos sete anos de idade. Aos 14 anos, ganhou uma guitarra. Acho que a grande maioria não sabe que você é guitarrista.
HYLDON - Cara, meu primeiro instrumento foi o violão. Depois, quando tinha de 13 para 14 anos ganhei uma guitarra de um primo que tocava nos Fevers.
RA - Seu primo tocava nos Fevers?
HY - É, Pedrinho (Souza) tocava nos Fevers. Tocava acordeon, porque os Fevers tinham uma formação anterior com acordeon.Nessa época estava começando o rock'n roll.
RA - Sei.
HY - E naquela época tinha uma coisa engraçada: os grupos aqui não tinham guitarras, era muito caro. Então a molecada fazia as guitarras. Uma das primeiras guitarras dos Fevers foi feita com um violão meu!
RA - E o Hyldon guitarrista?
HY - Bem, os Fevers estouraram e começou o negócio da Jovem Guarda. Eles eram uma das bandas principais para acompanhar artistas em programas de TV, gravações e tudo. E começaram a ganhar instrumentos da Giannini. Foi por isso que meu primo me deu aquela guitarra: ele não usava mais. Era uma Giannini café com leite. E formei uma banda com garotos da minha idade em Niterói, chamada "Os Abelhas".
RA - Por causa dos Beatles? Besouro, Beatles, abelha...
HY - Nem era, cara. Eramos "Abelhas" porque a gente não tinha equipamento. Tínhamos as coisas que o Pedrinho dava. A gente pedia emprestado os instrumentos, "abelhava". Era uma gíria da época%u2026(risos)
RA - Entendido...
HY - Tinha muito garoto, filhinho de papai, que tinha os instrumentos mas não faziam baile. Daí...
RA - Perguntei da guitarra porque tenho impressão que pouca gente sabe que, de fato, você é um guitarrista dos bons.
HY - Além de guitarrista, sou baixista também. Eu sempre toquei baixo porque tinha que ensinar o baixista a tocar. Houve mesmo uma fase que toquei baixo na banda com o Tim Maia.

No estúdio com Tim Maia
RA - Como era o rádio nessa época? Você começando a tocar com Os Abelhas, tirando as primeiras músicas.
HY - Minha cultura, basicamente é de rádio. Eu ouvia muito, demais. Os primeiros programas de rock no rádio me influenciaram pra caramba. O Carlos Imperial tinha um programa de rock'n roll que eu ouvia muito. Haviam antes os programas populares, César de Alencar, Paulo Gracindo, onde ia todo mundo. Tinha orquestra, os programas eram feitos ao vivo, programas de comédia, o Brasil parava para ouvir as novelas. Uma vez eu quase quebrei o rádio lá de casa porque achava que tinha gente dentro do aparelho. Ouvia aquelas rádio-novelas achando que tinha gente pequena dentro do rádio, eu tinha de cinco para seis anos. Por causa disso minha mãe me levou para assistir um programa desses na Rádio Nacional. Eu fui muito influenciado pelo rádio. Foi no rádio que ouvi pela primeira vez João Gilberto cantando "O Pato". O primeiro cara que me ligou em rock%u2019n roll foi o Little Richard, também no rádio . Eu gostava muito de um programa chamado "A lira de Xopotó" só de bandas marciais. Todas essas coisas que vieram do rádio me influenciaram.
RA - Houve um tempo que você fazia essas turnês que os radialistas promoviam, não? Você acompanhava o Paulo Sérgio, andando atrás dele com o violão no circo. Como é essa história?
HY - Eu já estava com 16 anos e toquei num programa chamado "Calouros do Paulo Bob" acompanhando os cantores que apareciam por lá. O cara era meio cowboy, era muito conhecido na época. Ele tinha um programa na Rádio Federal de Niterói. Toquei também no "Jair de Taumaturgo" que era um cara que tinha um programa chamado "Festa do Bolinha".
RA - Mas e a história do circo, com você acompanhando os artistas nas turnês de rádio?
HY - Eu chego lá.Um dia faltou o guitarrista na banda do meu primo e o substituí numa gravação. E aí comecei a tocar em outras gravações. No disco do Paulo Sérgio eu gravei as bases das guitarras. Com o dinheiro comprei um carro a prestação. Achei que iria ganhar aquele dinheiro sempre. Porque veio o primeiro trimestre onde ganhei um dinheirão. Pensei que iria ganhar sempre isso. Só que no outro trimestre veio menos e assim por diante. Então comecei a ter que me virar. Por isso, além do conjunto de baile comecei a fazer parte dessas caravanas. Eu ganhava meu cachezinho e acompanhava o Paulo Sérgio, ficava atrás dele no picadeiro com o violão... (risos)
RA - Foi nessa época que você participou da primeira composição de um certo Michael Sullivan. Dizem que ele tinha um apelido engraçado...
HY - É.... o "porquinho". O Ivanildo. Mas a primeira música que gravei foi em 68. Quando eu já estava trabalhando dentro da gravadora me falaram de um produtor e eu fui procurar esse cara. Era o Jairo Pires. Falei que tinha umas músicas e que queria mostrar. Mostrei uma chamada "Eu me enganei". Ele gostou e incluiu num disco do Robert Liv, um argentino radicado no Brasil que hoje é produtor do Julio Iglesias para a América Latina. Ele já parou de cantar. Aliás, ele não cantava bem: a única coisa que ele fazia de diferente era por o pé na cabeça (risos). O negócio da música com Michael Sullivan foi quando eu já estava fazendo outras coisas, ouvindo muita soul music, enveredando para o blues, ouvindo aqueles artistas da Motown. Já tinha até gravado um soul com a Rosa Maria. Nessa época estavam montando um conjunto lá na TVS, chamado "Os Selvagens". O Rossini Pinto queria fazer um conjunto na cola dos Fevers e me chamaram. O Sullivan entrou também. Eu estava sem fazer nada mesmo, fui só para sair na foto do disco (risos). Fiquei três meses nesse conjunto com o Rossini Pinto, que talvez seja o cara que tenha gravado mais versões no Brasil. Ele dominava essa coisa de versão. Era ele e o Fred Jorge. E lá fomos nós acompanhar o Rossini num festival em Vitória. Só que eram os anos 70, só tinha maluco no festival. Só para você ter uma idéia, a música que ganhou o festival era um rock chamado "Agite antes de usar". E nós com umas músicas bregas, com Rossini cantando mal pra caramba. Tomamos uma baita vaia nesse festival (risos). Ali eu já me desliguei da banda e nem voltei pra casa com eles. Fiquei arrasado. Nunca tinha tomado uma vaia tão grande na minha vida...
RA - Foi nessa época que você começou a trabalhar como produtor?
HY - Não, ainda não. Nessa época do conjunto, tinham dois caras: um é o Tinho (Martins, saxofonista) que foi tocar depois com o Tim Maia na banda Vitória Régia.E o Sullivan que se deu bem. Mas o Ivanildo (Sullivan) não sabia compor..Ele não compunha. E eu sempre compus. Aí falei: "Pô, você toca guitarra bem, canta bem. Por que tu não faz umas músicas?" Ele respondeu que não sabia fazer e eu disse: "vamos tentar fazer uma juntos". Fizemos uma música que foi gravada por um cara que imitava o Roberto Carlos e trabalhava na mesma gravadora, chamado Zé Roberto.
RA - Um Roberto Carlos genérico.
HY - É, daquele tipo que pegava as coisas que o Roberto não gravaria. Ele ia lá e gravava. O Paulo Sérgio era o grande concorrente do Roberto Carlos na época, vendeu muitos discos.E esse Zé Roberto era apadrinhado pelo presidente da gravadora. O presidente era um baixinho meio ridículo que não deixava você afinar a guitarra. O bordão dele era "Não afina não. Se afinar não vende"...
RA - Eu sei que você fez produziu muito disco até você conseguir colocar o seu na praça.
HY - Como eu vivia nesse ambiente, gravava pra meio mundo. Chegou uma hora que eu comecei a tocar melhor, a estudar e fui desenvolvendo um estilo de tocar. Comecei a ser solicitado em outras gravações como músico. Toquei com Toni Tornado, com Eliana Pittman, Wanderlea. Aí apareceu o Tim Maia me chamando pra tocar. Conheci o Tim no primeiro disco dele. No segundo já estava gravando tocando guitarra. Em várias músicas dele sou eu que toco guitarra, como em "Sossego", "Não quero dinheiro". Mesmo depois que fiz meu disco continuei a participar dos discos dele, tocando guitarra. Às vezes eu ia até no show dar uma canja. A gente tinha uma afinidade muito grande tocando juntos. Ele ia aos meus shows também. Toquei também com Simonal na época. Ele tocava com César Camargo Mariano, fiz o disco inteiro com eles.

Com a Banda Black Rio
RA - E Elis Regina?
HY - A Elis chamou pra tocar mas chegando lá estava tudo escrito, partituras e eu nunca soube ler música. Falei que pra mim não dava e pedi para chamar o Hélio Delmiro que acabou tocando com a Elis um tempão. A Gal Costa me chamou para tocar quando me viu com a Wanderlea. Nesse período conheci o Cassiano, que dizia pra mim: "Pô, tu tem que gravar o seu disco, você tem um estilo". Uma vez mandei uma fita pra Elis com umas músicas através do Nelson Motta. Ela mandou um recado dizendo que eu é quem tinha que gravar. Desde 70 comecei a me preparar para gravar essas músicas, para fazer o meu disco. E fui vendo que a única maneira de ter um domínio sobre as minhas músicas seria me tornando produtor. Eu produziria meu disco. Não teria aquela figura do produtor impondo coisas. Eu sabia o que queria, tinha muita experiência de estúdio. E foi o que eu fiz na Universal. Comecei a produzir coisas que não tinham nada a ver com o meu trabalho, entende? Produzi cantores bregas, disco de samba. Fiz muita coisa legal nessa época como produtor. Criei um banco de compositores lá na Universal. Para quando precisasse de música, independente de estilo, encontrasse ali. Não esquecendo que o cast da gravadora tinha mais de 100 artistas!
RA - Naquela época as gravadoras tinham hábito, julgo eu louvável, de manter artistas que não vendiam muito para dar prestigio à gravadora e que acabavam influenciando a música popular brasileira.
HY - Milton Nascimento gravou anos sem vender quase nada.até embalar. Outra coisa importante nessa fase foi que eu tocava muito com o Mamão (Ivan Conti, baterista do Azimuth N.E) e com o Alexandre (Malheiros, baixista da mesma banda), que eram os caras que eu mais me "afinava" tocando. Eu comecei a levar esses caras para gravar no lugar dos Fevers que faziam as coisas mais populares. Por exemplo, Odair José. O primeiro disco dele que estourou na Polydor somos nós tocando, eu e o Azymuth. Até que um dia eu estava pronto e gravei meu disco numa brecha que pintou. Assim que saiu em apenas uma semana começou a tocar em tudo quanto é rádio.
RA - Você deveria ter amigo radialista a essa altura, não?
HY - Não tinha nada.
RA - Então como é que estourou nas rádios?
HY - Era um compacto. Naquela época quando chegavam os discos na rádio, o cara ouvia o suplemento. Chegavam lá 10 compactos simples, 30 Lps. A primeira vez que ouvi uma música minha tocar em rádio foi na JB, aqui no Rio. Depois estourou em São Paulo na Rádio Bandeirantes, que era uma rádio que tinha um poder danado no Brasil. E aqui teve um cara que me apoiou bastante, que me deu a maior força no rádio, que foi o Big Boy. O Big Boy começou a tocar na Mundial. Mas aconteceu assim em vários lugares.
RA - Mas não tem uma história sobre o seu disco ficar "cozinhando" na gravadora um tempão na mão do André Midani?
HY - Meu disco ficou oito meses indo e voltando dentro da gravadora. Isso aconteceu porque ele (André Midani) cismou que eu tinha que gravar Angie, dos Rollings Stones. E eu não queria gravar, porque eu queria mesmo era gravar as minhas músicas, eu sou um compositor. Até que um dia, pressionado pelo departamento comercial, que falou que eu ia largar tudo e tal, eles liberaram. De 10 discos da companhia, no ano de 73, de um cast de mais de 100 artistas, entre eles Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Odair José, Erasmo, Nara Leão, MPB 4, Ronnie Von. De 10 discos, eu tinha produzido quatro. Mas mesmo assim eu não tive apoio de gravadora, nem foto tinha. A primeira vez que fui numa rádio meu compacto estava em 2º lugar no Brasil inteiro. Foi na Rádio Globo. Depois as coisas foram acontecendo porque as pessoas começaram a me procurar. Não que a gravadora fizesse algum trabalho, entendeu? Os divulgadores da gravadora me ajudavam contra a vontade da companhia, me ajudavam porque gostavam de mim. Com o pessoal de rádio sempre foi muito fácil, muito legal. Eu sou normal, né cara? Nunca fui de fazer tipo, ué.
RA - Hyldon, você é um cara que viveu dentro das gravadoras, botando a mão na massa, sabendo como a coisa funcionava. O mercado hoje está totalmente diferente. Não há mais o LP e mesmo o CD está começando ensaiar uma retirada. Como você vê essa indústria hoje tomando como base a sua experiência anterior?
HY - Eu acho que as gravadoras erraram muito nesses últimos anos. Eu não sei se foi na vontade de acertar ou por incompetência, entende? São muitas variantes. Eu fiz um curso de marketing no ano de 72 para 73. Ninguém nem sabia o que era marketing. Eu adoro propaganda. Sou fã, tenho uma porrada de amigos publicitários. Sou amigo do Fabinho da F/Nazca, do Brandão que hoje tem uma agência em Brasília. Adoro a parte criativa. Agora, o que eu acho que aconteceu nas gravadoras é que antigamente existia um diretor artístico da gravadora. Existia a figura do diretor artístico. Com o tempo acho que o Marketing começou a sobrepor o artístico. Se você pegar os presidentes das companhias, você vai perceber que a maioria vem da área de marketing. O cara quer inventar coisa. Houve um final de semana que eu estava em casa e minhas filhas assistiam um programa no domingo e apareceu a banda Calypso. Veja você: a banda Calypso é totalmente o oposto disso tudo que está aí. É uma coisa que veio do popular, como acontece em muitos movimentos. Quando a gravadora vê, a coisa já estourou. Com isso os calypsos da vida estão aprendendo a viver independentemente. Quando o marketing dominou as coisas e começou com o jabá, porque o cara não quer errar, eles conseguiram acabar com a parte lúdica do rádio! Não deixaram espaço para a rádio receber o suplemento! Hoje em dia, a rádio nem recebe disco! Um dia me ligou um cara da Rádio Globo de SP e me disse que fazia três meses que não ia ninguém da Universal lá. E a Rádio Globo tem programa que vai para o Brasil inteiro. Então tem coisa errada aí...
RA - Bastante coisa errada.
HY - Por quê tem tanto programa de flashback no rádio? Por que você vê essa onda toda de cult? Na realidade, tirando as bandas de rock, onde muitas são forjadas, tem o marketing pago. Tirando isso é difícil aparecer alguém. Mas rapaz, se você for lá em Porto Alegre... O que tem de banda boa lá. Puxa vida. Fui fazer a Festa Nacional do Disco, o que ganhei de CD. Tem uma cantora muito boa lá, umas bandas boas. E por quê não tocam? Me diz o motivo.
RA - Tem muito músico e a variedade é muito grande. E não é isso que a gente está ouvindo no rádio.
HY - A rádio não reflete a música, infelizmente. Aí vem um e diz que a música está em crise. Não estou colocando nem o lance de venda, porque tem a pirataria. A gravadora hoje, ficou refém dessa situação, ela tem que pagar pra tocar. E qual é o critério? Um dia eu estava conversando com um cara de uma gravadora. Ele me contou que estavam com um CD de uma cantora escolhendo qual a música eles vão detonar primeiro. "Detonar". Ou seja, isso não tem base nenhuma. Primeiro porque a pessoa está ali querendo salvar o seu emprego. O feeling que o diretor artístico da rádio tinha antigamente para saber se uma música vai ser sucesso ou não, onde está? Ele decidia começar a tocar e outro ouvia e tocava também e assim ia. Esse feeling, esse sentimento, não existe mais. Essa incompatibilidade. Tomara que a Internet consiga resolver isso, cara.

Paulo Coelho, outro parceiro
RA - Você deixou um recado bacana Hyldon.
HY - Tomara que o mercado me escute. Eu não tenho raiva. Fiz 3 projetos agora para a Universal, acabei de deixar um clip lá. Sou amigo deles. Sou amigo dos caras da EMI, mas infelizmente eles estão num bico de sinuca danado. Porque mesmo que eles tenham um bom produto, eles não conseguem mais tocar na rádio de graça. Aonde isso vai dar, não sei. O cara da rádio já se acostumou a conviver com esse cala-boca. A rádio também tem uma parcela de culpa. Ficou muito cômodo.
RA - O Tutinha deu uma entrevista histórica na Revista Playboy onde explicou o que é o jabá, com detalhes, como funciona e ninguém do mercado comentou, como se ele não houvesse dito nada.
HY - Eu fui numa reunião em Porto Alegre e ninguém falou de jabá com os artistas. Porque no fundo, o que o cara quer é gravar numa multinacional, só que elas não existem mais. Isso é uma doce ilusão. É outro formato agora. E o pior é que o público não tem nada a ver com essa historia.
RA - Essa que é a parte triste. Porque isso se reflete no dia-a-dia das pessoas. Há um enorme prejuízo cultural. As pessoas emburrecem.
HY - Eu fiz um disco na Trama há 3, 4 anos. Aí cheguei em SP e fui numa dessas rádios grandes e toquei a música. Quando saiu o meu disco o cara parou de tocar a música pra eu ir lá conversar com ele. E parou de tocar até as velhas que ele tocava antes.
RA - E as novidades?
HY - Tem a minha banda, voltei a ter o prazer de tocar. Estamos nos preparando para gravar. Serão músicas antigas, porque as pessoas cobram. Por mim iriam só novidades.
RA - Um registro em DVD?
HY - Tem esse álibi do DVD, você tem uma coletânea tudo junto e tal. Estamos preparando e espero gravar logo isso porque quero fazer outras coisas.
RA - E o cinema?
HY - Graças a Deus tenho feito umas coisas com cinema muito legais. Eu tive música no "Carandiru", no "Cidade de Deus". Agora estréia o filme da Tata Amaral, chamado "Antonia", que também virou uma mini-série na Globo. A Tata me deu um presente maravilhoso que foi um clipe de "Na sombra de uma árvore" em película, muito legal. Soube da noticia de um outro filme do Cláudio Torres, irmão da Fernanda Torres, que também quer colocar uma música minha no filme. Fico muito honrado com isso. O cinema está vivendo uma fase linda agora, conseguindo produzir. Coisa que precisa acontecer na música também.
RA - Para encerrar, uma curiosidade: me disseram que existe um disco inédito seu, produzido pelo produtor da Janet Jackson, que seria como se fosse um "Racional do Hyldon". É verdade?
HY - Eu passei uma fase difícil e briguei com uma coisa muito importante no meu trabalho que é a palavra. Parei de acreditar na palavra. Parei de ler, e achei que a palavra não tinha mais valor nenhum e perdi a fé. Em 89 recebi o convite de uma gravadora chamada Esfinge. Infelizmente essa gravadora durou pouco. Eu gravei um disco nessa fase e, quando estava finalizando, apareceu esse cara, Wayne Henderson, trombonista dos Crusaders e produtor conceituadíssimo de artistas como Janet Jackson e Brothers Johnson que estava no Brasil a trabalho. Mostrei o meu disco e ele se apaixonou. Ficava me chamando de Change Man porque eu tenho essa mania de ficar mudando o andamento e as levadas das canções. Wayne gravou uma faixa comigo lá no estúdio da Transamérica. Fiz um pedacinho da letra inglês de uma música chamada "Pétalas Vermelhas". Ele gravou o pedaço dele em inglês e levou pro estúdio dele em Los Angeles, mixou totalmente de graça o disco todo pra mim.
RA - Mas esse disco saiu?
HY - Saiu aqui no Brasil em vinil. Vendeu umas 20.000 cópias. Eu tenho os direitos desse álbum, pois a gravadora faliu e ficou me devendo dinheiro. Qualquer dia desses vou relançá-lo.
RA - Se houver um produtor esperto lendo essa entrevista...
Por Ênio Martins - Rádio Agência
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