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Alquimia brasileira

Nada mais brasileiro do que a adaptação, tanto às adversidades como às coisas boas da vida. Neste último caso, esta capacidade representa, para gente como o baiano/carioca Hyldon, a espontaneidade de levar a vida ao sabor das amizades verdadeiras. Assim, o autor de ´Na Rua, na Chuva, na Fazenda´ justifica o título do seu novo trabalho ´Soul Brasileiro´ (DPA/Tratore). A seguir, Hyldon nos delineia seu passeio pelo soul, hoje cada vez mais em dia, em som e idéias, com a diversificada realidade brasileira

Depois de um ano, o disco ganhou um novo formato do que você pensava inicialmente. Como foi a feitura  do CD, "de acordo com a maré", como diz a "Rapaz de São Paulo"? E por que tanto tempo sem lançar nada inédito?
 
A demora foi por que não apareceu nenhuma proposta interessante, aí pintou a Editora Warner Chappell com quem trabalho há três décadas, me ofereceu o estúdio /técnico. Em troca, eu entraria com a produção musical da minha produtora, a  DPA Discos, e poderia fazer o trabalho com calma e inteira liberdade. Foi o que aconteceu, levamos exatamente um ano entre gravações e mixagem.
 
Isso se refletiu na diversidade sonora, do forró à música eletrônica, mas também nas letras?
 
A idéia inicial era gravar sem nada eletrônico, queria fugir da padronização sonora atual, seria um disco com violões  e muita percussão. Aliás, isso aconteceu, a única música que fugiu desse esquema foi "Bahia do H". Gravei igual às outras músicas, mesmo esquema, e convidei o Carlinhos Brown para fazer uma participação. Como ele mora em Salvador, mandei a sessão de gravação (coisa que a tecnologia permite). Ele me ligou perguntou se podia virar de cabeça pra baixo, eu autorizei. Como tolher um cara tão talentoso como ele? Lá ele teve aquela idéia de concepção com muita eletrônica pra falar que a cidade de Salvador é  2008, está antenada com o mundo,  é cosmopolita, moderna e hi tech. Então fez o que fez.
 
A mistura era uma proposta desde a primeira faixa de "Na Rua, na Chuva, na Fazenda", a "Guitarras, violinos e instrumentos de samba". Quais eram as tuas referências para isto?
 
Penso que vem da minha formação popular, vem do que eu escutava no rádio e depois fiz muito baile e nunca tive preconceito: bolero, frevo, samba, seresta (tem musicas lindas) rock, Soul Music. Junte Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Roberto Carlos, Ed Lincoln, a galera da Tropicália, incluindo Mutantes. Aí vc mistura com Ray Charles, The Platers, Little Richard, Stevie Wonder, Trini Lopez (o homem que criou o Cha-cum-dum, foram meus primeiros vinis, dois álbuns dele: "Trini Lopes at PJ's volume I e II"), foi meu contato com a música latina, com o bolero. Agora some isso tudo com um pouco de  Beatles, o resultado dá Hyldon.
 
Como foi relançar o teu disco de estréia, em 2005, com direito a remixes dos dois maiores sucessos da tua carreira?

Foi muito legal. Como era um disco comemorativo, queríamos fazer algo diferente. Na parte gráfica, fizemos um encarte com fotos restauradas, sobras que não usamos no álbum. Comentei todas as músicas contando as histórias delas. Convidamos o Bossacucanova para fazer dois remixes, eles se amarraram  pois trabalharam com as gravações originais, de oito canais, de "Na rua, na chuva, na fazenda" e "As dores do mundo". Eu adorei o resultado. Gosto e ouço música eletrônica. 

Hoje você canta estas músicas com o mesmo suingue ou você acha que dá uma "interpretação mais madura"?
 
Independente de técnica, tem duas maneiras de vc fazer isso, se transportar pro momento quando vc fez a música ou adaptar aquela história ao momento que vc está vivendo agora. Mas cantar é a magia de desnudar a alma.
 
O "Na rua..." destacou ainda "Na sombra de uma árvore", "Vamos passear de bicicleta?" e "Acontecimentos", entre seus grandes hinos até hoje. Por que isso não se repetiu? Você não soube "transar" bem o sucesso dele?
 
Eu tive problemas com as gravadoras porque nunca deixei que elas me manipulassem. Sempre gravei o que meu coração mandava. E dos anos 80 pra cá a nossa relação piorou. Os diretores de marketing tomaram lugar  dos diretores artísticos, as gravadoras diminuíram o cast e instituíram o jabá. Como eles pagavam pra tocar qualquer coisa que tocasse cinco vezes por dia , de tanto martelar viravam sucesso. Isso foi muito ruim pra música, pro povo que  era obrigado a engolir goela adentro o que essas pessoas decidiam. Graças a Deus, com a ausência de boa música na mídia, as pessoas passaram a ir mais a shows pra ouvir seus artistas preferidos, propiciando o aumento do interesse aos shows. Outra coisa que tem ajudado é o aparecimento de novas tecnologias, isso possibilitou a diminuição dos custos de gravação. Hoje em dia, qualquer um grava um disco com qualidade profissional. Ontem fui assistir uma banda nova chamada Qinho e os Cara. Era a última apresentação das quatro que eles fizeram durante o mês, estava lotada. Todo mundo cantando as músicas inéditas. Não apareceu ninguém de gravadora por lá, e era em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, perto onde estão localizadas as sedes desses "diretores". Voltando ao começo, quanto ao sucesso, tive algumas outras músicas tocando em novelas em filmes, mas ficou difícil tocar no rádio. O Chico grava, o Milton Nascimento grava, o Djavan grava, mas vc não ouve na rádio. Encontro fãs que perguntam quando vou gravar, e meu disco saiu agora em novembro. Pouca gente sabe que estou com disco novo, só sabe quem lê jornal sempre, porque o espaço é pequeno, mas mais democrático que no rádio e na TV. Agora, pra uma música fazer sucesso, tem que tocar no rádio, tem que tocar na novela. E aí? Se vc está fazendo pelo seu próprio selo como o Milton Nascimento, o Djavan, como eu, sem uma grande verba pra fazer tocar. A música não chega até as pessoas. Mas temos que buscar soluções, na internet, fazer mais shows e não ficar em casa reclamando.
 
É difícil acreditar que "As Dores do Mundo" foi composta num túnel, andando, a caminho de saborear um famoso sanduíche do Leme, como você conta no encarte. Ela reflete o teu otimismo, né?
 
Sou otimista desde sempre, graças a Deus! A história é verdadeira, e eu sempre conto porque é um lugar estranho pra se fazer uma música. Ainda mais uma música tão romântica.
 
"Na Rua, na Chuva, na Fazenda" já teve um processo mais demorado, tendo a paixão, meio platônica e o "balanço do violão" como estopins. Isso aconteceu outras vezes? O que pode ajudar a explicar o sucesso da música?
 
Sucesso não tem bula, Eu, no meu caso, que faço quase que crônicas da minha vida,  acredito que as pessoas se identificam porque estou passando um sentimento com música e letra de uma coisa que elas sentem, mas não sabem como exteriorizar.
 
Você andou fazendo um disco infantil e músicas para o personagem Seu Boneco, de Lug de Paula. Como foram essas histórias?
 
Esse ano, vou lançar um DVD para bebês em desenho animado, tá quase pronto. Com o Lug, foram cinco anos e mais de duas mil apresentações. Escrevi três peças, produzi e dirigi e aprendi muito com ele e o Chico Anysio. E trabalhar com crianças  é muito bom. A criança não compara, não critica nem associa com outras coisas, ela simplesmente gosta ou não. O adulto tem mania de comparar, e, em arte, isso é muito ruim. Não dá pra comparar uma música com outra. 

"A vista mais bonita de Copacabana é a da favela", diz você em clima de samba. Qual a sua ligação com o ritmo e com essa parte da cidade?
 
Tive grandes amigos sambistas, João Nogueira, Bezerra da Silva, Roberto Ribeiro. Produzi vários discos de samba, dentre eles "100 anos de samba", "Banda do Canecão" e, em todos os meus discos, sempre tem um samba, claro, do meu jeito. Nesse samba tem a participação do Alceu Maia no cavaco, grande músico e grande maestro.
 
MV Bill usa samples com suas músicas, e "Na Rua, na chuva" parou na trilha do "Cidade de Deus". Ela é um contraponto ao cotidiano de hoje...
 
No caso do MV BILL, os pais dele curtiam muito meu trabalho, tinham meu disco, ele tem uma relação afetiva com essa música. Sobre o filme "Cidade de Deus", o próprio Fernando Meirelles disse que era a música que retratava bem a época, foi a primeira música que ele escolheu. Fiquei muito orgulhoso de fazer parte daquele filme maravilhoso. Uma Honra.

Você faz soul até pra falar de "3 éguas, 1 jumento e 1 vaca", da mesma época de "Na Rua, na Chuva, na Fazenda", embora a mais rural, no som, seja mesmo "A Moça e o Vagabundo", com a viola do Zé Menezes. Qual sua ligação com o interior?
 
Fui criado em Senhor do Bonfim, perto de Juazeiro, sertão, agreste. A música de Pernambuco, o frevo, Luiz Gonzaga e a Banda de Pífano de Caruaru, volta e meia apareciam por lá. Eu nasci em Salvador e fui pra lá com seis meses e morei até os seis anos. Gosto muito do som  do interior de Goiás,  Almir Satter é meu ídolo. Fiz essa música em cima de uma letra que o Zeca me mandou, eu havia voltado do Amapá e fiquei impressionado com aquela calma do povo de lá, o principal meio de transporte é o barco, ficamos dois dias, mas foi o suficiente pra sacar o contraste entre esse povo e os do  Rio, Recife, Salvador. Zeca gravou em São Paulo com o Tuco Marcondes e mandou pra mim. Lembrei do grande Zé Menezes, essa lenda viva (84 anos), trabalhou de Carmem Miranda a Roberto Carlos, e que toca todos os instrumentos de corda, inclusive a viola caipira que eu queria. Nos anos 70, antes de gravar, fui trabalhar de produtor na antiga Polygram e trabalhei muito com ele. Todos os discos de samba que produzi, era  ele o meu maestro. Por isso, quando o convidei, ele topou na hora. Somos amigos. E ele respeita o meu trabalho como eu o dele. Pouca gente sabe que Zé Menezes é o autor do Tema dos Trapalhões da TV Globo. Ele é um grande compositor. Fora isso, fiz dupla de guitarras com ele em vários discos. Outro dia, pedi uma  cópia de uma música pro Chico Buarque, "Baioque", gravada pela Bethania pro filme de Cacá Diegues, em 1972, creio, somos nós dois nas guitarras. Agora voltando ao soul, quando mandei um MP3 pro Zeca ouvir ele disse que era um "Árido Soul". Então não dá pra fugir do soul, mesmo quando faço uma música super brasileira.
 
Essa fusão de samba e soul, explícita em "Brazilian Samba Soul", chegando ao rap, com sua filha, numa linha próxima ao que a Fernanda Abreu faz e até do que o Jorge Ben fez, é uma coisa que você sempre procurou?
 
Eu não planejo música, ela flui. Quem me deu idéia de colocar um Rap naquele pedaço foi o Alexandre do Bossacucanova. Chamei o MVBill, mas ele demorou tanto pra responder que resolvi fazer um hip-hop, mas saiu mesmo foi um repente hip hop ou um rep-hip-hop. Como minha filha é ligada em Hip Hop, a convidei. Quando acabamos de gravar, recebi um email do MVBill, dizendo que adorou a música e que topava gravar. Mas já era. Penso em fazer alguma coisa futuramente com ele. Outro cara que gosto muito e com quem gostaria de trabalhar é o MC Catra.
 
A africanidade de "Kanku Mussá" é uma herança ainda de Salvador ou é uma coisa do Rio mesmo? A sua música sempre teve muito da "Bahia com H"?
 
Gosto muito de condomblé, de música cubana, do samba, do blues. Vem tudo da Mãe África. Eu tinha o refrão "Quem não pode com mandinga não carrega Patuá" e gostava de ficar tocando esse pedacinho nos ensaios. Quando estava no meio do processo de gravação, vi o Ramon Torres, meu contra-baixista, lendo um livro do Nei Lopes e pedi pra ele fazer uma segunda parte da letra inspirado no que estava lendo. Ele fez uma segunda parte de melodia e a letra em cima da história do Kankú Mussá. 
 
E teu estilo de vida, tua visão de mundo hoje, o que mudou em relação àquele tempo? Entre tantas músicas, tantas visões, tantas musas, qual a sua visão sobre a música, o país, o mundo hoje?
 
Minha maior preocupação é cuidar da minha família, da minha companheira que me atura há 25 anos e ser produtivo. Estou com vários projetos na manga, tem um trabalho com o Sullivan, vamos fazer um CD/DVD, novas parcerias com o Zeca, o Carlinhos Brown, a gravação do meu primeiro DVD com meus clássicos e jogar minhas peladas.Ter acesso às informações via jornal, TV e Internet e arranjar um tempo pra ler que é um lance muito importante pro meu trabalho. Sou sossegado, viciado em filmes em DVD e sempre que posso vou ao cinema. O programa preferido da família é comer fora, de preferência no Japonês, às vezes eu ou uma das minhas filhas, Halina e Yasmin,  damos uma de cozinheiros e a gente come em casa. Minha especialidade são as moquecas de peixe e camarão e os molhos para macarrão. Músicas como "Domingo Triste", "Medo da Solidão" e "A Moça e o Vagabundo" continuam com a tua marca, misturando um certo existencialismo com o romântico, em clima intimista ou suingado, ainda se referindo às musas.
 
Tem duas musicas que têm esse clima: "Domingo Triste" e "Rapaz de São Paulo". São musicas dos anos 1970 que eu nunca tinha gravado. "Tres éguas, um jumento e uma vaca" é outra, achei que elas cabiam na concepção do disco e eram inéditas.
 
E o "Forró da boca pequena"?
 
O forró faz parte da minha infância. Fui assistir a um show do Antônio Nóbrega, no Planetário da Gávea. Ele com o grupo dele tocando aquelas músicas maravilhosas, a cúpula, a gente vendo as estrelas, a lua, a poesia de Suasssuna... Saí em êxtase, voltei à minha infância e fui compondo um forró bem chão, andando pela rua. Quando cheguei em casa, peguei um papel e escrevi a letra. Pra gravar, chamei o grande Zé Américo, arrasando na sanfona, e Zé Menezes não resistiu e tascou uma viola no forró.
 
E a "Guinguiana"?
 
Foi uma experiência nova pra mim. O Guinga é um dos maiores compositores da atualidade. Fiquei impressionado com um disco dele chamado "Cheio de dedos", aí resolvi fazer uma música para violão (instrumental) e convidei uma menina com uma voz doce como um pássaro, a Alessandra Verney, para fazer uma participação especial. É uma música em homenagem ao Guinga e aos violonistas brasileiros, tipo o Dilermando Reis, Paulinho Nogueira, Rafael Rabello etc...
 
"O último latino-americano" também tem uma visão bem completa da realidade, remetendo um pouco à proposta do Mano Chao. Qual a idéia?
 
É uma musica que compus com o Mauro Santa Cecília, grande poeta. Levamos dois anos brigando (no bom sentido) e fazendo essa letra. Confesso que quero sempre impor as minhas opiniões, talvez seja o hábito de compor sozinho. No final deu tudo certo, e o Mauro participou da faixa, fazendo uma performance nos últimos versos. Aos 44 do segundo tempo, chamamos a gracinha da Karla Sabah pra cantar conosco.
 
Você fala que lia muita ficção-científica, cultural oriental, Machado, Jorge Amado. O soul brasileiro precisa ter essa visão de mundo mais ampla para revelar sua integridade? Como anda o gênero no país, não falta uma certa espontaneidade?
 
A música negra domina o mundo dividindo as atenções com o rock. O hip-hop é uma vertente do soul e está nos USA , na África e claro,  no Brasil. O que sinto é que as pessoas preferem copiar do que criar algo original.
 
Além de "Eleonora", houve outras músicas em que a droga te ajudou?
 
Acho que a droga não ajuda, às vezes atrapalha. Quando tive experiências com ácido, antes li "Erva do diabo", do Castanedas, e "A Ilha",  do Aldous Huxley. Esse livro conta a historia de uma comunidade que vive de uma maneira totalmente diferente, isolada do resto do mundo e lá todos tomam um chá alucinógeno, mas num ritual, e essas experiências coletivas extra-sensoriais serviam para o crescimento interior de cada um. Quando usei drogas foi para usufruir de alguma maneira pra minha música, mas hoje eu penso diferente, acho que vc pode viajar com a sua mente limpa, na ioga vc faz isso.
 
Você fazia parte, com Tim Maia e Cassiano, de uma tríade do soul brasileiro. Sem falar no Paulo Diniz. Quais as melhores lembranças da convivência com eles? Alguma mágoa?
 
Só coisas boas, a gente fazia uma coisa que hoje em dia quase não existe: se juntar pra levar um som, pra compor, pra trocar informações. A tecnologia facilitou muita coisa, a troca de arquivos via internet etc. Mas roubou um lance precioso que é o contato humano.
 
Como produtor ou parceiro, você tem ligação com muita gente da MPB, de Odair José a Caetano Veloso. Como eram esses encontros?
 
O Odair José, eu produzi as bases dos primeiros discos dele. Levei o pessoal do Azymuth pra gravar, eu tocava guitarra e violão. Em "Pare de tomar a pílula", somos nós. Produzi outros cantores ditos bregas (eu acho uma babaquice esses rótulos): Balthazar, Maurício Reis, Adilson Ramos, Diana, Wanderléa são grandes artistas. Quanto ao Caetano, nos encontramos poucas vezes, algumas na gravadora, éramos colegas. E houve uma vez na casa dele, quando ele pôs letra numa música minha do meu segundo disco, o nome da canção é  "Primeira pessoa do singular". Teve um lance bacana de ele ter incluído "Na sombra de uma árvore" no show dele, o "Cinema transcendental". Sou contra rótulos classificatórios, e o nome do meu disco é uma brincadeira com isso "SouL Brasileiro".
 
Você disse que, naquele início dos anos 70, só Cat Stevens, Joe Cocker, Michael Colombier e James Taylor eram os brancos da tua discoteca. Isso deve ter mudado muito. Quem você ouve hoje em dia, no soul, no rock e na MPB?
 
Hoje em dia ouço de tudo, a qualidade do soul feito nos Estados Unidos também caiu muito, mesmo assim ouço todos os discos do R.Kelly, cantor e compositor maravilhoso, Maxuel, D'angelo, Angie Stone, Alicia Keys e, lógico, os antigos. A nossa música é muito rica. Gosto e tenho disco da Céu, Vanessa da Mata, Margareth Menezes, Zeca Baleiro, Cláudio Zolli, Lenine, Chico César, Ed Motta, Carlinhos Brown e os mais antigos Gil, Alceu Valença, Fagner, Carlos Daffé, Caetano, Sullivan, muita gente boa.

"O Choro de Brown", dedicada inicialmente ao James Brown, vai do choro ao próprio baiano do Candeal...
 
O Carlinhos é um doce de pessoa ,um grande compositor e um multi-instrumentista. E também gosta do meu trabalho. Essa música é um choro típico e convidei o Afonso (bandolim) e o Tiago (cavaquinho) do Galo Preto e o Zé Carlos Bigorna (flauta). A principio, seria uma música instrumental. Ricardo Brasil, que tocou pandeiro, tinha uma frase só e uma idéia de juntar choro com James Brown, mas quando fui compor o resto da música, fiz um choro tradicional e mudamos o título para "Choro da Donzela". O Delano, que foi o técnico e co-produtor do disco, ficava pegando no meu pé pra pôr uma letra, a musica era instrumental. Peguei um livro do Machado de Assis pra reler o "Brás Cubas" e dali veio a inspiração do "Rio Antigo". O Carlinhos entrou porque fiquei imaginando ele vivendo naquela época, aposto que o choro não seria o mesmo. A letra começou assim, aí eu viajei, pensei no João Gilberto tocando violão, o Tom Jobim fazendo a melodia e o Chico Buarque fazendo a letra. Quando vi a letra tava pronta. No último dia de gravação, eu coloquei voz e coloquei o nome de "Choro de Brown" pra homenagear esse artista muitas vezes injustiçado, sem contar o trabalho que ele fez no Candeal. Estive em Salvador rapidamente pro aniversário da minha vó, nos encontramos e ele me levou no estúdio que fica lá dentro da favela mais colorida e limpa que eu já vi. Enquanto várias pessoas cercavam o Carlinhos, eu, um pouco afastado, ouvia os  papos sobre a comunidade. E Carlinhos atendendo a todos com muito carinho, uma senhora veio falar comigo: - Olhe moço, vc não imagina o que era isso aqui antes dele. Pra gente aqui, é Deus no céu e Carlinhos na Terra. Lembrei desse acontecimento quando dei o nome de Choro de Brown  pro nosso chorinho. Pelo artista e pela pessoa que ele é. E aí entra o destino, a música voltou a se chamar "Choro de Brown".

Como foi ver "As Dores do Mundo" e "Na Rua, Na Chuva, na Fazenda", gravadas por Jota Quest e Kid Abelha?
 
Foi um presente de Deus, as músicas estouraram de novo, e acabou levando para os meus shows muitos jovens querendo conhecer mais do meu trabalho.
 
O que te fez convidar o Chico para tocar kalimba, e não para cantar?
 
O respeito por tudo que ele representa e acima de tudo pela pessoa que ele é, gente boa, solidário e muito simples. Ele aceitou o meu convite inusitado e arrasou na Kalimba. Ah!Somos parceiros de pelada (futebol) há muitos anos. Lá nas quatro linhas, sou um marcador implacável, mas saiu dali,  tenho um respeito artístico muito grande por tudo que ele faz, principalmente sua habilidade pra escrever letras e livros.
 
E os outros convidados, Zé Menezes, Frejat e Brwon, além de Zeca Baleiro, Dalto, Carlos Daffé, Jorge Vercillo, Tunai e Carlinhos Vergueiro nos vocais?
 
No início, queria fazer um disco com três pessoas, mas,  no decorrer de um ano, foram chegando pessoas e acabou tendo a participação de 35 cabeças. Da mais nova, que é a minha filha Yasmin, com 18 anos, ao pernambucano arretado Zé Menezes, com 84 anos. (NR: Zé Menezes, na verdade, é cearense, da cidade de Jardim). Sem contar com a galera da parte gráfica do CD, César Oiticica (fotografia), Zoé Medina projeto gráfico e o Leca (LA Estúdio) e o  seu pessoal na arte final. Tem ainda o trabalho maravilhoso de masterização do Ricardo Garcia. Eu fiquei muito feliz durante o trabalho com o convívio dessas pessoas e com o resultado final do CD. Agora é cair na estrada e sair Brasil afora mostrando esse trabalho com aquele orgulho de dever cumprido.  

"Soul Brasileiro"
Hyldon
R$ 21,90
14 faixas
2008
DPA/TRATORE

Por: Henrique Nunes - http://diariodonordeste.globo.com

 
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