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Resenha: Soul Brasileiro

A verdade é que, hoje, pouquíssimas pessoas conhecem Hyldon. Os quarentões mais ligados à música e (talvez) só. A juventude bem que canta “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, indubitavelmente o maior sucesso do artista, mas decerto creditam a autoria da canção à banda Kid Abelha, responsável por recente regravação da mesma.

Também é verdade que Hyldon nunca teve uma carreira regular. Durante muito tempo, lançou discos de maneira espaçada e engatou somente alguns outros poucos hits, como “As Dores do Mundo” e “Na Sombra de Uma Árvore”. Não obstante esse fato, os entendidos de música popular o catalogam (eles adoram essa coisa de departamentalizar) como um dos vértices do triângulo representativo maior da soul music nacional (os outros dois seriam Tim Maia e Cassiano).

Baiano, o artista, porém, nunca deixou de compor. É de uma safra de músicas inéditas que se forma a totalidade do repertório do novo trabalho que o cantor acaba de lançar de maneira independente (são quatorze faixas, tendo sido doze delas criadas recentemente). E embora o título do novo álbum, “Soul Brasileiro”, tente pegar carona no que lhe criaram como estigma, felizmente ele termina soando mais que apenas isso. Nele, Hyldon se mostra um compositor plural, passeando por gêneros musicais que, outrora, lhe soariam inusitados, tais como samba, chorinho e forró.

A produção do disco é assinada por ele próprio e aí se notam certas limitações, talvez oriundas de escassez de verba. Produtos independentes têm mesmo que ser vistos sob uma ótica mais complacente. Neles, muito mais que as supostas falhas, deve ser ressaltada a obra do artista em si, sua qualidade intrínseca, e não o que surge como invólucro. Somente o fato de não estar acomodado (ou parado) já faz com que Hyldon seja merecedor de justos aplausos.

Mas, apesar de alguns percalços, trata-se de um disco que vem em muito boa hora. Recheado de convidados especiais, desce redondo. Logo na primeira faixa, nota-se que o compositor se encontra em ótima forma: “Medo da Solidão” (que conta com a participação de Chico Buarque tocando kalimba) é canção simples, porém bem acabada e que pega de prima. Em “Copacabana Beach”, o cavaquinho de Alceu Maia dá o suporte necessário para uma letra ao mesmo tempo crítica e divertida. E enquanto a etérea “O Vento Que Vem do Mar” conta com poderoso time de convidados nos vocais (Jorge Vercillo, Tunai, Carlinhos Vergueiro, Dalto e Carlos Dafé), a toada ruralista “A Moça e o Vagabundo” traz a intervenção de Zeca Baleiro (parceiro de Hyldon na faixa) executando o violão base. “Aquele Rapaz de São Paulo”, embora nunca antes tivesse sido registrada, foi composta há mais de trinta anos e talvez por isso seja, dentre as canções apresentadas, a que mais se remete à fase inicial de Hyldon (nela, o convidado é Frejat, responsável pelas guitarras). Carlinhos Brown, por sua vez, toca percussão e baixo em “Bahia do H”. O timbaleiro produziu e mixou a faixa em seu estúdio Ilha dos Sapos, em Salvador (BA) e é citado em “O Choro de Brown”, deliciosa canção que se transforma em um dos pontos altos do disco. Mais um homenageado é o violonista Guinga em outro momento bem bacana: a (quase) instrumental “A Viola e a Moringa” que conta com o timbre macio de Alessandra Verney nos vocais. Ainda fazem parte da festa o sanfoneiro Zé Américo em “Forró da Boca Pequena” e a cantora Karla Sabah que enobrece “O Último Latino-Americano”, faixa que conta também com a presença de Mauro Santa Cecília em um texto falado.

Hyldon canta legal. Tem suingue na voz (que, em alguns momentos, lembra o conterrâneo Raul Seixas), mostrando-se perfeitamente à vontade com sua obra e, ao reconhecer que é esse o seu disco mais brasileiro, assume também que foi construindo o trabalho sem pensar em interesses comerciais. E decerto que isso se refletiu no resultado satisfatório.

Com idéias convincentes, Hyldon construiu um CD bacana. Ouça sem medo!

Por: Rubens Lisboa - http://infonet.com.br/

 
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