Hyldon lança álbum só com inéditas
Apesar de pronúncias variadas, a maioria errada, o nome dele é Hyldon. Hyldon de Souza Silva, como faz questão de esclarecer. “Com este negócio da MTV, começaram a me chamar de Ryldon, mas na realidade é Hyldon. Tem gente que me chama até de Rayldon, pra dizer que sabe inglês”, diverte-se o cantor, compositor e instrumentista baiano, autor dos hits Na rua, na chuva, na fazenda, As dores do mundo e Na sombra de uma árvore, cujo nome de batismo tem origem em Hildonete, a mãe da Paraíba, que, segundo diz, resolveu tirar o ete do próprio nome, além de substituir o i pelo y, para dar mais “sofisticação” ao nome do rebento, nascido há 57 anos.
Amigo e parceiro de gente como Tim Maia, Cassiano, Wilson Simonal e Luiz Melodia, o remanescente da geração soul brasileira acaba de lançar o primeiro disco de inéditas desde 1989, depois de O vendedor de sonhos, de 2003, em que alternava a releitura de clássicos com inéditas. Apropriadamente intitulado Soul brasileiro, o disco que está saindo pelo selo DPA, do próprio artista, surpreende pela diversidade rítmica e de gêneros, indo do pop ao forró, passando pelo samba, choro e, naturalmente, soul. “A música cabe em momentos determinados. Não dá para comparar música para dançar com música para ouvir ou música para romance”, afirma Hyldon, que diz ter guardado as esperadas baladas para um disco retrospectivo, que vem preparando.
“Independentemente da minha vontade, eu estou sempre compondo”, afirma o cantor, para afastar a hipótese de entressafra na criação, além da (provável) discriminação do mercado fonográfico. “Acho que tenho um pouco de culpa, entre aspas, porque sou como diretor de cinema. Só gosto de aparecer quando tenho alguma coisa nova. Não sou aquele artista vaidoso ou aquele cara muito ligado a dinheiro”, garante Hyldon, avesso ao culto atual à celebridade. “Acho ridículo. Quero fazer história com a minha música, não com flash”, posiciona-se. “Qualquer um pode ser celebridade, mas nem todo mundo pode ter uma música que toca 30 anos no rádio”, orgulha-se da própria história. “Minhas músicas são cartas que escrevo para a posteridade, sem esperar respostas”, cita a famosa frase de Heitor Villa-Lobos.
“Quando estou fazendo a música, não penso no que vai ocorrer daqui a um, dois meses. Penso em anos depois, em deixar a minha obra registrada. Com este compromisso meio fora de moda, até me comprometo, ficando distante da mídia, o que acaba refletindo na hora de fazer shows, de divulgar discos”, avalia Hyldon. Ouvinte da geração Motown Records, a gravadora americana que se especializou em black music nas décadas de 1960/70, Hyldon também se diz influenciado por Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Irakitan, Ângela Maria e Nelson Gonçalves, entre outros ídolos da MPB. “O que gosto mesmo da soul music é a parte vocal, que vem do gospel. Uma escola de canto que a gente não tem aqui no Brasil, onde temos pouquíssimos conjuntos vocais. E a parte da música quase dançante, mesmo lenta, que é baixo e bateria, com a qual eu, Tim Maia e Cassiano trabalhamos muito”.
DE CHICO A BROWN
Com mais de 30 convidados, em Soul brasileiro, um disco solar do encarte da capa à temática de muitas canções, Hyldon recebe desde Chico Buarque, que toca kalimba em Medo da solidão, a faixa de levada pop com a qual abre o disco, até a conterrânea Karla Sabah, que faz vocal em O último latino-americano, da parceria com Mauro Santa Cecília, na qual o poeta recita parte da letra. As vozes, segundo admite, funcionam como instrumentos, em que a principal, naturalmente, é a dele, além do próprio violão. “Como músico, sempre fui solicitado para gravar quando era música de suingue, rápida. Mesmo nas músicas lentas, sempre tive essa coisa do suingue. Com Tim Maia, por exemplo, sou eu tocando guitarra em Sossego, Não quero dinheiro. Gravei muita coisa com Simonal e com Melodia, também. Sempre explorando o suingue da mão direita. Neste disco tem muito disso, a coisa do violão, do balanço”.
Em O vento que vem do mar, de um único verso, Hyldon se dá ao luxo de ter nada menos do que Dalto, Carlos Dafé, Jorge Vercillo, Tunai e Carlinhos Vergueiro nos vocalizes. O barão-vermelho Frejat toca sua guitarra em Aquele rapaz de São Paulo, uma das poucas do repertório antigo, além de Três éguas, um jumento e uma vaca que, escrita para Emílio Santiago na década de 1970, acabou rejeitada pelo produtor Roberto Menescal, que queria que ele substituísse a palavra jumento. Como não aceitou, o samba rock permaneceu inédito até então. A faixa instrumental A viola e a moringa (Guinguiana)é uma homenagem ao compositor carioca Guinga. Carlinhos Brown, além de também homenageado em O choro de Brown, toca vários instrumentos no Forró da boca pequena. Já a filha MC Yasmin declama com o pai a letra de Brazilian samba soul. E ainda tem Zeca Baleiro, com quem ele fez A moça e o vagabundo.
Em plena forma, Hyldon curte a regravação constante de sua obra, admitindo ser uma honra ter sucessos estourados novamente em versões de bandas pop. “É a música fazer sucesso duas vezes”, comemora, salientando que a composição mais gravada dele é Na rua, na chuva, na fazenda, que depois da original, dele, ganhou interpretação do francês Richard Clayderman, além dos brasileiros Golden Boys, Tim Maia, Christian & Ralph, Jorge Aragão, Ivete Sangalo , Kid Abelha, Da Gama e Cidade Negra. Marisa Monte, Lenine e Fagner são alguns dos intérpretes que estão sempre cantando Hyldon em seus shows. Curiosidade histórica: Primeira pessoa no singular é a primeira e única parceria dele com o baiano-mor Caetano Veloso, gravada no disco Deus, a natureza e a música, de 1976.
PRIMEIRO SUCESSO DO JOTA
Ao lançar o primeiro álbum, em 1996, batizado com o nome da própria banda, puxado por As dores do mundo, o Jota Quest acabaria por se tornar um dos responsáveis pelo resgate da obra de Hyldon, até então ignorado pelas novas gerações. “Antes de mais nada, gostaria de dizer que As dores do mundo foi nosso primeiro single, nossa primeira música de trabalho, quando ainda nem tínhamos gravadora”, recorda Rogério Flausino. “Até hoje tocamos As dores do mundo nos shows. Para nós, além do sucesso, ela é como um patuá”, acrescenta o vocalista da banda mineira. A canção foi originalmente lançada pelo próprio autor em seu primeiro disco, de 1975, cujo título era Na rua, na chuva, na fazenda, outra balada do compositor que se tornaria hit nos anos 1990, na voz do Kid Abelha, que a gravou no mesmo 1996, no disco Meu mundo gira em torno de você.
Lançando La Plata simultaneamente a Soul brasileiro, do amigo baiano, Rogério Flausino quer saber do ídolo qual é a sensação de lançar um álbum pela internet, via MySpace, onde, coincidentemente, a banda mineira disponibilizou algumas músicas do novo CD. “Você tem tido muitas respostas dos fãs?”, pergunta Flausino a Hyldon, por meio do Estado de Minas. “Como disco está muito caro, para mim está sendo ótimo saber que tem gente que poderá ouvi-lo na internet. Fora o fato de poder experimentar antes de comprá-lo”, responde Hyldon, lembrando que enquanto Rogério Flausino está lançando La Plata por uma multinacional, Soul brasileiro está chegando aos fãs por meio do selo que ele está inaugurando. “Colocamos o preço médio do nosso a R$ 20, para fugir da pirataria, enquanto os discos de gravadoras costumam ser vendidos a R$ 30”, diz, lembrando que os fãs têm gostado do disco. “O que tem me surpreendido são as crianças gostando do CD”, comemora.
Por: Ailton Magioli - http://www.otempo.com.br/
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